Entrevista com dr. Jair Pinto

Compartilho com vocês essa entrevista publicada no Jornal BomDia em 29/08/2010 – http://www.redebomdia.com.br/Noticias/Dia-a-dia/29285/O+obstetra+Jair+Pinto+encara+Sabatina+do+BOM+DIA

Vamos analisar e pensar com carinho🙂

Sabatina

Obstetra especialista em parto normal responde a perguntas do conselho do BOM DIA

Agência BOM DIA

Na capital nacional da cesareana, Rio Preto, Jair Pinto, pai de seis filhas, cria método para parto natural e diz que o bebê que
vai nascer é mais importante que a mãe

Edmilson Zanetti – Quem é Jair Pinto?
Jair Pinto –
Talvez, nessa região, eu seja a único médico com essa idade trabalhando até agora. Se precisar trabalhar de madrugada, ainda estou firme.

Cheguei a Mirassol como cirurgião geral e operava muito tireoide. No meu tempo só tinha dois médicos: José Sicardi e Waldomiro Thomé. E o médico do posto de saúde, Hernani da Gama Correa.

Carmem Soler – Como chegou à obstetrícia?
Jair Pinto –
Fui obrigado a fazer de tudo. Fiz o primeiro parto quando estava no terceiro ano de medicina. Montei o instituto de ginecologia e fui em cima da ginecologia e obstetrícia. Fui estudando cada vez mais, aperfeiçoando, até chegar num ponto que vi que existia muita coisa errada. Muitos acham que a pessoa mais importante é a gestante. Não é a mãe, é o bebê que está no ventre.

Em 1975, o verdadeiro fenômeno foi Frederick Leboyer, que chegou e disse que estava tudo errado. Michel Odent, também francês, seguiu a trilha de Leboyer. Odent foi um grande batalhador do parto natural, inclusive do parto dentro da água. Me inspirei nessas criaturas espetaculares e comecei a fazer uma coisa diferente.

Então, bolamos uma forma de fazer um parto humanizado, onde o foco principal era o bebê. A mãe vinha em seguida.

Teve um dia que fiz sete partos. Tinha um hospital pequeno, uma clínica com nove leitos, com espaço para aula a gestantes. Cheguei a ter 15 gestantes assistindo aulas. Eu acompanhava e ensinava a respirar.

A respiração do cachorrinho, que os americanos gostam de fazer, é combatida. Inventei uma respiração. A respiração do cachorrinho cansa. Inventei uma coisa que é a respiração do a-a-a-a. Isso modifica a dor. Não falo dor. Falo contração. Aí adotamos uma mesa de parto que fiz umas modificações. A mesa dava a posição de cócoras, mas com a mulher sentada.

Ela sentava, e tinha uma abertura para colocar as pernas. E para as mãos tinha um arco para segurar. Na sala de parto, na hora de nascer, desligávamos a luz porque o bebê está lá no seu escurinho. É uma agressão. Você está grávida e vai ter um bebê que é único no mundo. O parto é um momento de muito respeito e de receber essa criança com dignidade.

A postura de pegar a criança pelos pés e dar um tapa para chorar é uma agressão muito violenta. Quando entra o ar, o pulmão infla, e deve doer muito, e ainda leva uma palmada daquelas. A criança não está com o joelho esticado, pois está nove meses encolhida. Como pega essa criança pelos pés e coloca de cabeça para baixo? A dor deve ser muito grande no joelho. E isso você não vê em livro.

A gestante hoje nem toca em assunto de parto. Gravidez é igual cesariana. É uma coisa bárbara, terrível. Então, apagamos as luzes e eu dizia que ninguém podia falar. O único que podia falar é quem iria nascer. A mãe fala, mas nós da equipe de jeito nenhum. A criança nasce e é colocada no peito da mãe. É a parte sensorial.

O contato da mão da mãe com o bebê. Pele com pele. É o melhor cobertor que tem. E ninguém fala porque o bebê tem de ouvir a voz da mãe e do pai que está junto. Às vezes a gente coloca uma música relaxante.

Antigamente eu fazia: boca no bico. Forçava e o bebê não pegava. Não adianta forçar. É a parte gustativa em que ele vai sentir o sabor e o estímulo que vai dar para a mãe ter leite. E também o nariz, que vai com a boca. Ele vai sentir aquele odor que a mãe tem.

Gilberto Scandiuzzi – Por que se mudou a forma de nascer? Por que se faz só cesariana?
Jair Pinto –
  A mudança foi aos poucos, desde o aparecimento do SUS, que pagava mal aos médicos. Era mais interessante ter um parto cirúrgico do que um parto natural. No parto normal, o médico, às vezes, fica horas e horas. E na cesariana o hospital ganha, o dono do hospital tem interesse.

O anestesista ganha, o médico que faz a cesariana ganha, o auxiliar ganha. E pagava mais a cesariana que o parto normal. Se fosse o contrário: vamos pagar mais pelo parto normal, mas não.

Carmen Soler – Quais as vantagens e desvantagens do parto de cócoras para a litotomia?
Jair Pinto –
Quando a mulher está nesta postura, ela não está comprimindo os grandes vasos. Ela não consegue dormir de barriga para cima. A gente a manda deitar do lado esquerdo, pois do lado direito tem a veia porta e a veia cava. O parto natural está acabando com esses recursos da medicina. E a postura. Quando é cesariana, o anestesista costuma virar a mulher de lado para não comprimir os grandes vasos e não pressionar e o sangue voltar e a mulher se sentir mal.

Amélia de Freitas – A gente vê na TV e nos filmes mulher demonstrar muita dor e sofrimento no parto normal. Não seria interessante o governo fazer campanhas desmistificando esse excesso de dor? O ultrassom incomoda o bebê?
Jair Pinto –
Normal é parto com sofrimento. A moça não está preparada para ter o bebê. Então, falo parto natural, em que há colaboração das partes todas. Mas o recheio mental é muito grande. Não sei como mudar isso. A mulher só pensa que vai doer. Quanto ao ultrassom, não vai prejudicar o bebê. Há emissão de raios, mas não atinge a criança.

Erina Ferreira – Em relação a criança que nasce de parto natural, sabemos que na questão do leite isso flui melhor, ela vai conseguir se alimentar melhor e mais cedo. Tem outro aspecto em relação a esse bebê: ele vai ser mais calmo?
Jair Pinto –
Nasceu é boca no bico. A criança, mesmo quando não põe a boca no bico, mas namora, fuça, há um estímulo que vai produzir os hormônios, que vão contrair o útero: ocitocina e aí a prolactina que vai produzir o leite.

Antigamente as maternidades, os médicos e as enfermeiras eram cruéis, imitavam Hitler. E não pode ser igual ao período da guerra. As enfermeiras alemãs ficaram famosas, eram violentas. Podia berrar do jeito que fosse, mas o peito era de três em três horas. De três em três horas coisa nenhuma. Tem que pendurar no bico do peito e deixar quanto tempo for.

Gilson de Barros – Minha ideia: a mulher chegou ao hospital para ter o bebê e não tem plano de saúde nem como pagar. Às vezes, não tem nem marido. Essa mulher, automaticamente, deveria ser esterilizada e não ter filho nunca mais. Ela ocupa a escola pública, a Febem, o CDP, os hospitais. Por outro lado, incentivar o pessoal que tem maior poder aquisitivo a ter filhos.
Jair Pinto –
Respeito sua opinião, mas não concordo. Tenho outra formação. A maternidade é uma coisa que a mulher tem de decidir por ela. Sou contra o estado dizer que tem de ser assim. A mulher veio ao mundo para procriar.

Fernanda Maturana – Mesmo com o alto índice de cesarianas na região, é possível o parto normal ser mais frequente ou vai ser esquecido?
Jair Pinto –
Acho que não vou ver isso acontecer. Há hospitais em que cesarianas são 100%. É difícil mudar isso. Tem plano de saúde que gasta milhões com time de futebol e não paga mais aos médicos. Os médicos estão fechando consultórios. Um médico não quer ficar a noite inteira no parto. Não só o médico. A família não quer.

Edilberto Imbernom – Seu espírito inquieto se acalmou com o tai-chi-chuan?
Jair Pinto –
O tai-chi é uma outra faceta da minha vida e é um aprendizado permanente e diário.

Procuro passar para os outros o que posso. A finalidade maior é essa: não só absorver pra mim. É um trabalho de meditação, de respiração e de plena consciência de tudo que se relaciona à sua respiração com todo o corpo, toda mente e todos os sentimentos.

A gente não pode parar de se aprofundar. A grande verdade é que o interior da gente é um mistério. A mente da gente é um mistério, e você aprender a sossegar sua mente é muito importante.
QUEM É E O QUE FAZ
Nome: Jair Pinto
Idade: 82
Profissão:  Obstetra e ginecologista
Especialidade:  Parto natural

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Márcia Celestino Macedo
    maio 15, 2014 @ 14:07:19

    olá…fiquei muito feliz em ter notícias do Dr. Jair, mesmo vendo que a entrevista é de 2010. Tive minha filha com ele a 22 anos e foi um trabalho lindo. Será que vcs poderiam me colocar em contato com ele novamente. Sou de São Paulo. Obrigada

    Responder

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